Weekend reads #68
Abundância e o problema permanente, porque o mercado cai mais rápido do que sobe?, o poder de plataforma é subestimado, os diferentes modos de como dados podem ser moats e mais.
#1 - Abundance and the Permanent Problem - Brink Lindsey
O novo livro de Derek Thompson e Ezra Klein, Abundance, foi um marco coincidindo com o anúncio das tarifas americanas contra o resto do mundo. Uma coincidência irônica, já que o foco do livro é no atual contexto de restrição à oferta em que vivemos, majoritariamente feridas auto infligidas. O século XX, principalmente seus primeiros dois terços, foi marcado por um movimento de transformação e construção de bens físicos - moradias, infraestrutura, indústrias - em uma velocidade e volume nunca antes vistos em boa parte do mundo, com um papel marcante do estado como indutor e direcionador de muitos desses investimentos, e um setor privado dinâmico que tinha muitas vezes carta branca. Essa explosão de oferta física criou o mundo de abundância que vivemos hoje. Países desenvolvidos onde a esmagadora maioria da população não imagina o que é a insegurança alimentar. Países em desenvolvimento onde percentuais elevados da população, especialmente nos grandes centros, vivem dessa mesma forma. Junto com esse desenvolvimento muitas coisas negativas também aconteceram. As décadas de 60 e 70 foram marcadas por movimentos em reação a poluição do ar e da água, à destruição ambiental, às políticas que passavam por cima de povos originários, minorias e pobres para transformar o mundo a qualquer custo. Essa conjunção de afluência e danos criou o estado que conhecemos hoje, e a tese é de que o pendulo foi exageradamente na outra direção. Hoje vivemos em um mundo de aversão a risco, onde o foco é direcionado em demasia ao cumprimento de processos e ao poder de veto e os resultados são um segundo plano. A aversão a risco e defesa do status quo sempre foram características das elites, mas com a massiva afluência da sociedade hoje ele é um traço muito mais comum. Ao mesmo tempo as pessoas anseiam por mudanças e por melhorias abstratas, mas elas, por desinteresse ou falta de conhecimento, ignoram os caminhos necessários para se chegar lá. A ausência de dinamismo econômico e mudança no capital físico colocam em risco tudo o que conquistamos como sociedade e representa no melhor dos casos um teto do qual não conseguimos passar. É a regra ver políticas que efetivamente vão contra os objetivos de crescimento econômico, geração de empregos e redução de desigualdades sendo defendidos por pessoas que genuinamente acreditam nesses objetivos sendo defendidas por ideologia ou por uma preferência por não se fazer nada porque as alternativas existentes são imperfeitas ou atingem privilégios conquistados (ou nem conquistados) por esse grupo. O livro e a crítica focam nos Estados Unidos, mas existem infinitos paralelos com o Brasil. Vemos pessoas defendendo, por exemplo, a proibição de verticalização dos Jardins, em São Paulo, um literal condomínio de casas em pleno centro da maior metrópole da América Latina, porque ali não seriam construídas moradias de cunho social e o mercado imobiliário sairia lucrando - que Deus nos proteja. Essa lógica se aplicada ao mundo significaria que nada mais seria feito, e tanto esquerda quanto direita genuinamente acreditam que isso seria ok, e assim poderiam ficar lamentando das injustiças do capitalismo ou falhas do Estado, sem olhar no espelho. Todos querem que o mundo mude, mas ninguém quer mudar. Vivemos em um mundo onde uma associação de bairro, de elite, pode mudar o traçado de uma linha metrô, algo básico e essencial para milhões de pessoas, sem precisar de um motivo prático ou justo. Criamos processos “participativos” onde o único resultado é que nada é feito, pois uma única pessoa ou pequeno grupo pode barrar um novo projeto. Ninguém defende que uma prefeitura possa pegar uma caneta, desenhar uma linha no mapa e passar uma estrada por cima de milhares de casas como foi feito no passado (e como ainda acontece quando não se tem poder econômico), mas criamos tantas barreiras que a menor perturbação é motivo para que nenhum avanço seja feito. Tudo demora mais e fica mais caro, até ser inviável. Limitamos ganhos expressivos para nossas cidades e países para não incomodar ninguém. Quando não estamos mais lutando por sobrevivência só resta lutar para eliminar qualquer risco ao que temos, mesmo que a oportunidade apresentada seja muito melhor no agregado. Entre os problemas dessa mentalidade está o fato de que as pessoas que querem mais, precisam de mais, uma hora cansam da falta de resultados tangíveis. Ao mesmo tempo que limitamos a oferta e a possibilidade de construção de moradia onde as pessoas querem e gostariam de morar alimentamos a demanda com subsídios ao consumidor. O resultado disso é um só, preços mais altos. A irracionalidade de se limitar o potencial de crescimento parece algo abstrato, mas os resultados para a população são tangíveis. A atual dinâmica das redes sociais torna tudo mais complexo. Ao mesmo tempo em que são imunes das limitações do mundo físico - aqui há abundância e custos muito baixos - elas retroalimentam as insatisfações das pessoas com o mundo e aumentam a aderência de visões populistas e extremistas. O mundo físico é complexo e difícil, o digital é fácil e conveniente. Isso torna o desafio de se mostrar a importância de que precisamos voltar a trazer resultados tangíveis ainda maior, dos motivos do porque não fazemos, nem se fala. O livro foca mais nas questões políticas, práticas e conjunturais, mas o artigo de crítica conjuga a visão civilizacional de que não é apenas uma questão de policy, mas uma dinâmica cultural mais ampla que parece ficar mais complexa a cada minuto. É difícil fazer as pessoas entenderem que o mundo pode ser diferente, mas que pra isso a vida delas precisa mudar. No feed temos o mundo que queremos on demand.
But the left who has sort of responded to it angrily, I also just don’t really think they’re that far left anymore, I think they’ve become very symbolically left. But they’re not that interested in government outcomes. They’re interested in the left-wing coalition. They’re interested in a kind of like aesthetic of leftism and like, are you sufficiently against corporate power and against the oligarchy? But I keep having these weird arguments where I’m talking to somebody who just, they seem very disinterested in whether or not the government can build all this public housing they want built. They seem very disinterested to me in whether or not the government can build all this green energy infrastructure that their Green New Deal requires. They seem very disinterested to me in what the government can actually achieve unless you can identify corporate power as the figure standing in the way.
#2 - Why Markets Crash Faster Than They Rise - Capital Gains
Existe um fenômeno curioso no mercado financeiro: os anos com as maiores perdas em um único dia são também os anos com os maiores ganhos em um único dia. E esses anos são também anos geralmente marcados por grandes crises. Os anos de bull market não aparecem. Uma explicação é a de que uma posição comprada traz ganhos através de um constante fluxo de boas notícias: a economia vai bem, a inflação está baixa, os lucros estão crescendo e o céu está azul. Enquanto isso, posições vendidas ganham quando algum choque acontece, e choques são rápidos e intensos. Quando a economia e empresas vão bem a expectativa é de que elas continuem indo bem. Sempre existem riscos, mas até que eles se materializem o mercado segue sua escalada, dia a dia, pouco a pouco. Um dia a mais sem a materialização de um risco é uma efetiva redução na probabilidade de frustração de uma expectativa, seja ela sobre o PIB ou a margem de lucro. Uma outra tese é a de que uma economia saudável é pró cíclica: se ela vai bem as empresas e famílias se animam e desejam expandir suas operações ou comprar uma casa maior, geralmente através de crédito. O aumento de alavancagem na economia funciona até que deixa de funcionar. E quanto mais alavancada essa economia geralmente maior o tombo para o nível “de equilíbrio”. Uma alavancagem maior também implica em concentração de resultados na parte de equity da economia, para cima ou para baixo. Ou seja, uma mesma mudança na margem de lucro ou na expectativa de inflação gera um impacto maior sobre as ações do que caso ela ocorresse em um cenário menos alavancado. Quando a notícia é ruim o impacto para baixo, alavancado, gera também uma cascata de chamadas de margem e liquidação de posições. A redução da liquidez no mercado também faz com que operações normais tem mais impacto sobre os preços. Um dos maiores short squeezes no mercado americano ocorreu no meio da crise de 2008.
When credit creation slows down, not only does consumption reset to a lower level, but now, the economy is both more variable and more levered, which is a dangerous combination. Households and firms respond to this by deleveraging, sometimes by choice (consumers deferring spending, businesses reducing capital expenditures in order to pay down debt) and sometimes because they have no choice (foreclosure, margin calls, bankruptcy).
#3 - Thinking-Things-Through Privilege - The Diff
Em um mundo onde o custo de criação de conteúdo, seja ele textual, imagem ou vídeo, se aproxima de zero nossa capacidade de interpretar e verificar o que chega a nós é cada vez mais relevante. Os LLMs hoje são tão competentes que eles podem criar 2 conteúdos coerentes e lógicos apresentando informações opostas. Por isso a habilidade saber questionar corretamente o que se quer saber (e de se auto questionar se a sua intenção é verificar se algo está correto ou só ter uma resposta validando sua própria opinião) é tão importante. LLM são úteis em posições de revisão equilibrada. Definir que ele atue adversariamente sempre que você questionar algo não garante que as críticas são corretas ou que elas estão te levando a estar mais próximo da verdade, porque nesse caso ele estará sempre buscando buracos no seu argumento, mesmo que eles não façam sentido, o que é uma perda de tempo que pode ser infinita.
You can and should use LLMs as a way to refine arguments, identify examples, etc. But getting in the habit of doing that increases the utility of having good judgment about which beliefs and outputs to question. An LLM makes you smarter when you run your own writing through it and ask for weaknesses, but it makes you dumber if you just run every argument you disagree with through the same process instead.
#4 - Platform Power Is Underrated - Stratechery
O modelo dos sonhos de todo empreendedor e investidor de VC é o de plataforma: um negócio que intermedeie uma relação de dois ou mais lados extraindo um take rate com o menor esforço possível ao mesmo tempo em que mais valor é gerado para todas as partes em utilizar a plataforma. As plataformas realmente gigantescas são poucas, hoje basicamente se limitando aos donos das lojas de aplicativos dos dois grandes sistemas operacionais móveis: Apple e Google. A Microsoft basicamente nunca conseguiu gerar uma plataforma monetizável dada a natureza aberta da web e dos PCs. Qualquer um podia desenvolver uma aplicação e vende-la diretamente ao consumidor sem intermediação da dona do sistema operacional. Muito no início a Microsoft também enfrentou um ambiente regulatório mais hostil, que impôs limitações para proteção a competição. Modelos mais lights de “plataformas”, que mais são marketplaces que intermediam apenas transações, são mais comuns, como Amazon, Uber, Airbnb e Mercado Livre. Mas elas não tem nem de perto a abertura e dominio da vida do usuário que Google e Apple tem, e em menor grau a Microsoft. Mas e a Meta? Por muito tempo a empresa nutriu o desejo de ser uma plataforma. O Facebook permitia a criação de jogos e aplicações por desenvolvedores, o lançamento de um smartphone Android customizado em conjunto com a finada HTC e o esforço mais recente no mundo de realidade aumentada/virtual. Mas a criação de uma plataforma sempre esbarra em um problema de ovo e galinha: para ter o interesse dos desenvolvedores de aplicações você precisa ter demanda, usuários. Para se ter usuários você precisa ter aplicações e um ecossistema que o diferencie ou pelo menos coloque em pé de igualdade com seus concorrentes. Caminhões de dinheiro foram incinerados por diversas empresas na tentativa de superar esse obstáculo, sem sucesso. As plataformas atuais possuem tanta demanda que o custo de oportunidade de se desenvolver e manter uma aplicação em uma nova plataforma é altíssimo. O caso de sucesso das duas incumbentes mostra que o caminho é em se criar um produto que gere demanda e interesse do consumidor. Ambas superaram a inércia para ter uma massa crítica de usuários através de “seus” smartphones e sistemas operacionais. Nessa mesma lógica a Meta agora aposta em criar um óculos de realidade virtual como novo dispositivo para interface com a era da IA. Essa aposta é feita com o objetivo de se criar um novo produto que marque essa nova era, concentrando os usuários e criando a fagulha do que será uma nova plataforma.
The great irony of Zuckerberg’s evolution — which he has been resisting for over a decade — is that this actually makes it more likely he will get a platform in the end. It seems clear in retrospect that DOS/Windows was the exception, not the rule; platforms, at least when it comes to the consumer space, are symptoms of products that move the needle. The only way to be a platform company is to be a product company first, and acquire the users that incentivize developers.
#5 - Data and Defensibility - Pivotal
Nos últimos anos ouvimos muito falar que dados eram o novo ouro ou o petróleo, uma commodity onde ter mais dela era o melhor. Mas mais que uma commodity, dados hoje são (ou melhor, podem ser) uma vantagem competitiva e uma barreira a entrada, um moat. Para configurar um moat não basta ter uma infinidade de dados. Existem dois tipos de moats de dados, controle e loops. Em controle temos modelos de negócio baseados no dado por si só e suas características. O negócio é dono do dado ou do seu repositório ou controla o fluxo de dados, que podem ser únicos e irreplicáveis. Ele agrega dados diferentes para criar uma central de dados para fins específicos (ex: Bloomberg), o negócio dele é ser uma base de registros de certas informações e de uso delas (ex: Salesforce) ou ele é responsável pelo fluxo de dados para que algo ocorra (Ex: Visa) etc. Como todos os moats existem graus de força para eles, e muitos dos moats de controle estão sendo derrubados pelos LLMs diretamente ou negócios que utilizam IA de alguma forma para desenvolver alternativas, como por exemplo na obtenção de dados ou até mesmo na sua fabricação. Uma outra categoria de moats em dados é a de loops. Da mesma forma que muitos dos moats conhecidos são baseados em feedback loops, onde uma parte do negócio cria um efeito positivo em outra parte que retroalimenta o processo, também os dados podem ter esse efeito. Isso ocorre de diferentes formas, seja através de uma grande quantidade de dados habilitando o negócio a capturar mais dados, seja através dos dados gerando aprendizado que gera valor para o negócio que cresce e gera mais dados, ou em cenários onde o uso mais intenso de determinado dataset o torna mais valioso para o seu controlador e para seus usuários. Os negócios que tem uma vantagem ou defesa maior são os que possuem a maior quantidade e intensidade de múltiplos moats de dados. Mas como qualquer moat eles não são uma garantia de vida eterna ou longa. Mudanças tecnológicas e a aplicação de LLMs em escala colocaram em risco muitos negócios que navegaram tranquilos nas últimas décadas. Moats são, geralmente, temporários. A melhor estratégia é usar o tempo ganhar para criar novas e melhores vantagens competitivas.
And therein lies alpha. Knowing the strengths and weaknesses of your own moats, of your rivals’ moats, and knowing what you (and they) can potentially build towards, is a major strategic advantage. Data moats are real, and they’re powerful, and AI makes them even more so; harness this power!

